- Um, dois, três, quatro, cinco…
Todos os dias o André contava, minuciosamente, o número de passos que dava desde casa até à escola. Percorria aqueles cinco quilómetros dia após dia e, só quando o senhor Fernando levava a mercadoria para a feira é que se sentava na parte de trás da carroça para contar o número de acácias à beira da estrada.
Desde muito novo que André se mostrava diferente das outras crianças. Tinha um mundo só dele onde a imaginação se misturava com a realidade e, no dia em que pela primeira vezes o comboio a vapor passou pela aldeia André decidiu que queria sair dali, viajar, correr o mundo. Mais não havia de ser de comboio. Ele iria voar, iria conhecer o mundo a partir do céu.
- André! Mas que raio é que vês dessa janela que não consegues ouvir o que eu digo? O que hei-de fazer contigo? Tu sabes que não sou a favor das reguadas e também não me parece que isso te faça mudar mas tu estás sempre na lua. Isto é importante rapaz. Não te queres tornar médico ou engenheiro para seres uma pessoa importante?
Mas André nem ouvia as repreensões e ainda a professora dizia a primeira frase já ele tinha saído, em pensamentos, daquela sala de madeira onde as outras crianças aprendiam a ler e a escrever. Ele não queria saber disso. Não precisava de escrever pois a única coisa que queria aprender eram todas as línguas do mundo e assim comunicar com todas as raças.
Todos os meses o tio Alberto passava pela aldeia e esses eram os melhores tempos para o jovem sonhador. O tio Alberto era caixeiro-viajante e era maravilhoso descobrir a parafernália de objectos novos que trazia naquela mala. Para André a maior parte dos objectos era mágica. “Coisas do outro mundo”.
- Isto são coisas da civilização! Descobertas científicas – dizia-lhe o tio com ar de entendido – Devias estudar, para que um dia possas criar as tuas próprias invenções. Vá rapaz, já que tudo isto te fascina, pega este livro. Descreve as grandes invenções! Aquelas que não posso trazer na minha mala.
André mal sabia ler. Mãe e professora bem se podiam exasperar. Todos, na aldeia, pensavam que o rapaz tinha qualquer tipo de atraso mas a André nada parecia incomoda-lo. Era feliz no seu mundo. Via passar o comboio e ficava a imaginar todos os seus caminhos. Imaginava os recantos do mundo e pensava que queria ir muito mais longe do que o tio. No dia em que pegou no livro, não lhe interessou o que nele estava escrito. Para ele as letras não tinham significado. Mas não deixou de folhear e sorver as imagens de coisas magníficas. Máquinas que ele não entendia para o que serviam mas que gostava de lhes dar utilidades próprias.
Foi no meio de tantas fotografias e de tantos jogos de adivinhar que André se viu obrigado a parar. Não queria acreditar no que via. Susteve a respiração, fechou os olhos e voltou a abri-los. Correu para a mãe mas esta não sabia ler e não podia dizer-lhe qual era a legenda da imagem. Quase sem respirar percorreu a estrada das acácias. Desta vez não contou nem passos nem árvores.
- Sr. Teotónio! O que é que diz aqui?
O dono da mercearia não estava habituado a ver André por ali. O rapaz só aparecia, quando de mão dada pela mãe, a ajudava a levar as encomendas. Falar, então, não se recorda de o ter visto.
- Mas o que é que se passa? Já não se diz bom dia?
- Desculpe, mas não percebo bem o que diz aqui e queria muito saber!
- Pois bem. Mas para a próxima não quero má-criações. “Primeira máquina voadora. O pedalar permite ao condutor fazer com que as asas batam para que, desta forma, a máquina se eleve. Sucesso não garantido. Inventor: Sir John Williams.”
Os seus olhos brilhavam tanto que não consegui conter as lágrimas. Agradeceu e sem mais palavras, saiu da mercearia a correr. André só tinha uma ideia na cabeça. Havia de fabricar a sua própria “máquina de voar”.
A partir desse dia passou a ser ainda mais distante. Na escola já não havia nada a fazer. A mãe estava desesperada e sem esperança que o filho pudesse a vir a ser alguém um dia. Mas para André esse foi o dia de partida para o seu sonho se tornar real.
No final das aulas corria para a floresta e com pedaços de acácias que foi construindo a sua bicicleta. Depois pediu ao tio que lhe desse aquelas rodas velhas que tinha para vender há anos e, com grandes pedaços de folha de metal (roubados ao pé da estação dos comboios) fez as asas da sua “máquina”.
No final de uma tarde qualquer a “máquina de voar” estava pronta. O seu sonho era real e o mundo estava à sua espera. Agora era só experimenta-la. Em vão, tentou dormir, pois queria ver o mundo do céu, à luz do dia. Assim que o sol nasceu, nem se preocupou com mais nada. Beijou a mãe com muita força e correu. Correu tanto e tão rápido como nunca ninguém tinha corrido antes. E lá estava a sua máquina, no seu esconderijo da floresta. Cheio de medo levou-a até ao topo da colina de onde podia ver a aldeia. Então sentou-se nela e começou. Pedalou, pedalou, pedalou, pedalou mas as asas não batiam. Pedalou mais e mais e sem hesitar levou a sua máquina a saltar pelo penhasco. Mas as asas não batiam e André estava a cair. Nessa altura cerrou os olhos e continuou a pedalar, a pedalar, a pedalar...